ARTIGOS PASTORAIS

O nome Parthenia, paginas de reflexão. Uma homenagem ao Bispo Jacques Gaillot, por sua simplicidade, firmeza e busca de novos caminhos. "Partenia ou Parthenia é sede titular de uma Diocese Católica Romana na atual província de Sétif, na Argélia. Antigamente uma grande cidade, a sede episcopal foi abandonada e consumida pelo deserto do Saara no séc 5. Bispo Jacques Gaillot de Évreux, na França foi colocado nesta sede titular pelo Papa João Paulo II como uma ação disciplinar por ter expressado posições liberais em matéria política e social; e opiniões heterodoxas sobre assuntos religiosos."

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DIMENSÃO HUMANA AFETIVA NA VIDA DO PRESBITERO

DIMENSÃO HUMANA AFETIVA NA VIDA DO PRESBITERO
Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS
“Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça
diante de  Deus e dos homens” Lc. 2,52.
Introdução:
Falar da dimensão humana afetiva na vida do presbítero é falar de uma experiência única vivida por um sujeito que define seu agir humano movido por uma escolha vocacional definida, que contem pressupostos que fazem parte da perspectiva da vida como um todo. Podemos observar dois elementos importantes que compõem o tema e se completam. 1) dimensão humano afetiva; 2) na vida do presbítero.
Por definição compreendemos que a dimensão humana afetiva é algo que pertence a todos os humanos, independente de sua opção de vida. Ela faz parte do ser gente. É uma dimensão estrutural da pessoa, faz parte da constituição humana. Ela  envolve o modo de ser e de se relacionar de cada um com as outras pessoas, coisas e o mundo. No âmbito  dos afetos estão envolvidas as emoções, os sentimentos, a racionalidade.
Na vida do presbítero (um modo específico de vivenciar o afeto) é o outro elemento importante relacionado ao tema. Aqui a dimensão humana afetiva ganha uma conotação própria especifica, vinculada a uma opção, um escolha feita cuja razão de ser é a entrega total e incondicional a Deus e ao seu Reino. Essa escolha “afetiva” é dom implica na aceitação de caminhos definidos na maneira de viver o humano afetivo, que exige um alto grau de maturidade e capacidade de gestir a própria vida diante dos apelos da própria afetividade. Quatro elementos[1] significativos compõem o horizonte da afetividade na vida do presbítero: a) o amor é o “coração” da escolha da vida do presbítero. b) Deus é a razão do amor presbiteral e por conseqüência o amor às criaturas, de modo particular os destinatários do apostolado. c) a totalidade. Deus é amado de todo o coração, de toda a mente e com toda a vontade. Deus é amado de coração e por um coração totalmente humano, enquanto a criatura humana é amada com afeição divina. Isto é, sempre por um coração de carne, mas educado pela liberdade de Deus  amar com a sua largura, altura e intensidade... d) a renúncia. Qualquer escolha envolve uma renúncia. No caso do presbítero renuncia aos laços definitivos e exclusivos por uma pessoa, por exemplo, ao matrimonio. Paradoxalmente ele escolhe não excluir ninguém! Em síntese, ele renuncia a amar com os critérios puramente humanos de simpatia, benevolência que prefere um e exclui outro, com base no instinto, na atração espontânea ou no interesse pessoal. O presbítero deve viver muitas relações, mas com um estilo particular, cuja centralidade é sua relação com Deus e a paixão por cada irmão, irmã. Como diz Cencini[2] ‘E isto para além de qualquer postura unilateral e extrema: nem urso, nem borboleta; nem fechado em si mesmo, nem na perpétua busca de apoios e compensações variadas; nem supermoralista a ponto de ver o mal por toda parte, mas tampouco ingênuo ou esperto! a ponto de se permitir tudo ou quase tudo”!
Muitas vezes nossa presunção nos leva a compactuar com auto enganos, como o de julgarmos saber e compreender tudo (já fizemos tantos cursos sobre isso), ou pensamos que com o passar dos anos entramos na fase da “paz dos sentidos” ou ainda somos sábios e realistas a ponto de nos dispensar uma grande paixão  no coração. Se nos esquecemos das razões fundantes de nossa opção e elas não permanecerem como objeto de atenção constante (formação permanente) transforma-se em cansaço impossível de viver e ou frustração permanente. Apropriando-me do pensamento de Cencini e aplicando ao presbítero podemos dizer, a opção presbiteral solidifica-se num “estilo de vida que envolve o modo de pensar e desejar, de dar sentido à vida e à morte, de viver a relação e a solidão, de estar com Deus e com o próximo, de crer e esperar, de sofrer e ter compaixão, de fazer festa e trabalhar...”[3]
Depois dessa introdução vamos detalhar melhor os dois aspectos acima acenados da dimensão humano afetiva na vida do presbítero. Não se pretender com isso abordar todas as facetas relacionadas ao tema e muito menos pretender esgotar o assunto relativo a esses dois aspectos.
  1. Dimensão humano afetiva.
Refletir sobre a dimensão humano afetiva implica desde o início, ter consciência de que se trata de assunto complexo que envolve a biologia (desenvolvimento físico, instintivo), psicologia (desenvolvimento emocional - emoções e sentimentos), antropologia (compreensão de quem é o ser humano), sociologia (o mundo das relações sociais), teologia (as relações com o transcendente), filosofia (perguntas a respeito do ser). E assim poderíamos listar ainda outros componentes.
Em nossa reflexão vamos acenar apenas para alguns componentes biológicos, psicológicos antropológicos.  Os demais somente de quando necessários para ampliar a compreensão.
1.1.Dimensão humano afetiva biológica.
O ser humano desde o ventre materno se desenvolve seguindo leis próprias da natureza humana. Vai se formando corpo que interage com outro corpo que o sustenta e nutre: a mãe. Até seu nascimento o seu meio ambiente é o ventre materno. Já aí suas características genéticas já definidas (DNA) e o meio ambiente começam a interagir. Ao mesmo tempo em que as células se multiplicam e formam os diferentes órgãos o feto  começa um “aprendizado” que passa pela sua sensibilidade em captar através dos estímulos orgânicos da mãe “mensagens” emocionais vividas por ela e que passam a afetá-lo.  As tensões, ansiedades, angústias humano afetivas da mãe são captados pelo nascituro e desde já pode sofrer condicionamentos que podem repercutir no seu futuro.
Com o parto inicia-se uma nova fase de desenvolvimento biológico e experiencial. Inicia agora uma busca por alimento ainda suprido pelo seio materno. Este não é apenas “instrumento”, canal para obter o alimento, mas se torna meio para a formação de novos vínculos afetivos, extremamente importante para o processo de desenvolvimento tanto biológico como afetivo[4]. Sabe-se hoje que o afeto na vida do bebê é tão importante (ou mais) quanto à alimentação. O bebê  recém nascido deve se adaptar as novas condições de temperatura, entrar em contato as outras pessoas a sua volta, e outros objetos e se estabelece um processo relacional que passa por fazes distintas, como do autismo, da simbiose, da separação/divisão e da integração objetal. Nem sempre o processo é contínuo e complementar. Podem ocorrer fixações com as conseqüências relativas a cada fase. O desenvolvimento biológico segue pelas etapas da infância, da adolescência até chegar ao corpo adulto em torno dos 21-25 anos. Em cada uma dessas fases do crescimento biológico há também o amadurecimento emocional envolvido com características próprias em cada fase.[5] Não havendo doenças ou outros fatores impeditivos, o aspecto biológico segue um ciclo que a própria natureza determina. Cresce, fica adulto, envelhece e morre. 
1.2. Dimensão humana afetiva psicológica.
Nessa dimensão vamos considerar dois elementos que se interpenetram quando se fala da afetividade. Um elemento é a própria afetividade distinta da sexualidade, o segundo elemento é a sexualidade enquanto fonte de energia biológica cuja ação também envolve o emocional e afetivo. Examinemos por partes para facilitar a compreensão, isto mais por necessidade didática do que por separação, pois ambas se implicam mutuamente.
A afetividade e sexualidade são dois termos que indicam em si aspectos diferentes da experiência humana, porém muitos interligados. São aspectos complexos da vida humana porque envolvem tanto a racionalidade como a emocionalidade. Por afetividade podemos entender tudo o que envolve sentimentos,  emoções, que são os canais pelos quais a afetividade se manifesta ou se move. A afetividade abrange desde as emoções “positivas”, que trazem satisfação, prazer, bem estar, até aquelas “negativas” que causam sofrimento, dificuldades, desprazer, agressividade.
A afetividade faz parte do cotidiano humano como o comer, beber, vestir, trabalhar. É uma realidade que acorda conosco, nos acompanha durante o dia e vai dormir conosco. Ela é uma característica humana (e animal, ela existe também nos animais, embora desprovida da racionalidade) que envolve todo o ser da pessoa. A grande questão está não no reconhecimento de sua presença, mas sim nas dificuldades que se apresentam em suas formas de expressão.
            Quais maneiras de expressar são aceitas, queridas, aprovadas, e quais não são aceitas, são reprovadas nas condutas humanas. Muitas formas são aceitas em uma cultura e em outras não. Há também maneiras próprias de se manifestar e ser entendidas nas diferentes etapas da vida (desenvolvimento). Há diferentes formas de expressões da afetividade: por gestos, por manifestações silenciosas, por impulsividades, por afagos, por abraços, por beijos, por cumprimentos, por sorrisos, por posturas corporais, por olhares, por escritos, por imagens etc. Uma outra forma mais contundente é pela sexualidade, pelo intercurso sexual, pela simulação, pela sedução. Por expressões normais e sadias, por expressões anormais, patológicas.
Diante dessa gama de situações poderíamos tentar, a título de compreensão, delinear alguns aspectos que nos ajudem a entender a afetividade bem como a sexualidade. Vejamos:

2.         AFETIVIDADE
A afetividade está ligada ao Eros ( deus do amor - afeto) e ao pathos (“sentimento”)[6] na nomenclatura grega.
Segundo a definição do dicionário “Aurélio” afetividade é o: “conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza”.
Pela definição acima já podemos perceber que se trata de algo complexo, “é um conjunto de fenômenos psíquicos”, portanto, se trata de algo que envolve individualidade, subjetividade e as relações.  Ela é expressão de um mundo interno da pessoa, do indivíduo, que vem associado com suas experiências pessoais, suas percepções, suas interpretações, suas simbolizações etc.
Não se pode, portanto, simplificá-la demais, sem correr o risco de esvaziá-la. Vamos vê-la por partes, para tentar compreendê-la melhor:
2.1.   Afetividade como expressão de emoções

Enquanto expressão de emoções, a afetividade se caracteriza por sentimentos que se manifestam fisicamente, elas aparecem em manifestações físicas em formas de expressões de alegria, contentamento, tristeza, abatimento, rubor, palpitações, arrepios, hilaridade, taquicardia etc. A afetividade enquanto emoção é visível, detectável, perceptível.
2.2.    Afetividade como expressão de percepções

Enquanto percepção ela é um modo como o mundo entra em nós e como nós o acolhemos dentro de nós. A percepção se dá normalmente através dos cinco sentidos. Eles são os canais pelos quais entramos em contato com o mundo e o mundo entra em contato conosco. Nossa percepção pode ser influenciada por diversos fatores, entre eles: o significado emotivo que o objeto percebido tem para nós; a intensidade (quanto forte é o estimulo); a familiaridade (quanto mais familiar um objeto, mais rapidamente ele é percebido); traços de personalidade; necessidade que experimentamos e valores que cultivamos, também fatores inconscientes; diferenças culturais. Etc.
Exploremos um pouco alguns deles, por exemplo:
a)        O significado emotivo do objeto.
Se um dado objeto (pessoa ou coisa) estiver relacionado com alguma experiência significativa para a pessoa, este objeto mais facilmente tomará conta da mente e sentimentos do individuo. Dependendo da carga emotiva envolvida o objeto é avaliado como atraente ou repulsivo, dai decorre um desejo de aproximar-se ou afastar-se do objeto. Essa avaliação pode ser contracenada pela avaliação racional, porém, dependendo da intensidade, é difícil para o individuo submeter-se àquilo que sua razão aponta como mais razoável, a tendência é usar a razão para justificar a aproximação ou afastamento do objeto (mecanismo de defesa da racionalização). Em outras palavras, o emotivo tende a prevalecer sobre o racional. (em termos religiosos diríamos, há uma propensão a ceder à tentação).
b)        A intensidade
Um estímulo pode ser forte ou fraco, variar sua intensidade, contudo em se tratando de emoções nós somos capazes de perceber os objetos até em seu limiar, esta percepção mesmo em nível subliminar é capaz de influenciar comportamentos e formar, com o passar do tempo, atitudes emocionais e transformar-se em hábitos. A tendência é de quanto mais forte for estímulo haverá mais facilidade de percepção e mais facilidade de razão. Se isto vale de modo geral, não se aplica necessariamente às percepções que envolvem cargas afetivas. Tendemos a ver os objetos de nossos desejos com mais sutileza e nos aproximarmos dele com menos estímulos, isto é, não é necessária muita intensidade de estímulo se o objeto em si já vem carregado de significado desejado. Basta uma pequena faísca.
c)         A familiaridade
Quanto mais eu convivo com o objeto, mais presente ele está, mais facilmente eu o detecto no meio de outros objetos. E assim poderíamos ir descrevendo os demais aspectos da percepção. Por hora nos baste estes para constatar sua capacidade de influenciar nossos atos (comportamentos).

2.3.   Afetividade como simbolização:

Nossa capacidade de simbolizar é muito grande e a usamos com muita freqüência. A linguagem dos símbolos nos lança para dentro de aspectos indecifráveis pela razão, bem como nos põe em contato com realidades que fogem às análises objetivas. O símbolo envolve o subjetivo da pessoa, e os objetos tornados símbolos ganham significados afetivos particulares, próprios para cada pessoa. Nosso inconsciente usa da linguagem simbólica para se manifestar. Nós o percebemos pelos sintomas que aparecem. Como todo símbolo vem carregado de significados afetivos e cada pessoa atribui aos seus símbolos seus próprios significados, então o grande desafio é a decodificação dos símbolos, ou melhor, sua interpretação. E para interpretá-los corretamente é necessário conhecer um pouco a que coisas eles estão associados ou ligados.
Em nosso inconsciente há muitas memórias afetivas que são atingidas pelos símbolos. Elas podem ser evocadas sem que conheçamos os fatos a elas relacionados, ou melhor, aos fatos que as geraram. Muitos fatos estão esquecidos, mas nossa memória afetiva retém a experiência emocional vivida em relação a eles. Estas podem ser evocadas por pequenos estímulos que percebidos como simbólico dos fatos esquecidos, acionam as disposições internas para reagir conforme o significado simbólico despertado.
2.4.     Como expressão da individualidade pessoal
A afetividade enquanto expressão da individualidade pessoal está ligada ao desenvolvimento psico afetivo do sujeito. Cada um de nós, no processo de desenvolvimento para a maturidade afetiva passa por estágios de amadurecimento que se diferenciam em cada um deles pelas características próprias que marca cada uma de suas fases. Mesmo vivendo no mesmo ambiente sócio cultural e familiar, dois irmãos assimilam de modo diferente a educação que recebem dos pais. O grau de afetividade que marca as relações é um fator preponderante para o amadurecimento sadio ou para fixações infantilizantes que podem se perpetuar na vida adulta. O aumento da idade cronológica não é sinônimo de amadurecimento afetivo. Embora um indivíduo biologicamente falando possa completar sua fase de crescimento em torno dos 25 anos, isto não é garantia de que da mesma forma se dá seu amadurecimento psico afetivo, isto é, que esteja maduro afetivamente aos 25 anos!  O indivíduo precisa encontrar no ambiente onde se desenvolve um clima afetivo favorável, com dosagem optimal de frustrações e afetos para aprender amar-se sadiamente e amar os outros e a Deus. Esse processo passa necessariamente pela experiência que faz no convívio com os outros com quem interage, de modo especial, os “outros” significativos afetivamente, que normalmente – no início da vida - são os próprios pais. O modo como alguém se sente amado, vai permitir ou não que adquira a certeza interna de se sentir amado e aceito ou rejeitado.  O sujeito expressa através de sua individualidade aquilo que acumulou nos anos em que viveu e como os internalizou dentro de si. Seu estilo de personalidade vai mostrar como vive, como se protege, como defende seu eu. Sua afetividade vai estar marcada por essas nuances todas.

3.        SEXUALIDADE
A sexualidade impregna todo o ser pessoal do homem e da mulher. Somos sexuados dos pés à cabeça. “O ser humano não tem sexo, é um ser sexuado da cabeça a ponta dos pés. Sendo sexuado, sente-se para além de si, dimensionado para o outro até nas determinações corporais. A anatomia dos sexos possui uma indicação: a mulher é aquela que recebe a colhe e interioriza; o homem, aquele que emite, projeta, exterioriza. Estas características incidem sobre a autocompreensão, sobre a psicologia diferencial e sobre a construção do estar-no-mundo com os outros[7]”. Tudo em nós tem a marca de nossa sexualidade, nosso ser homem, ser mulher é definido pela sexualidade. A sexualidade possui dentro de nós uma força vital muito intensa, ela está ligada à possibilidade de gerar novas vidas, ela está ligada ao prazer, está ligada ao instinto conservador da vida, está impregnada de afetos. A sexualidade é ao mesmo tempo um dom e uma preocupação. É dom enquanto originária do próprio criador que nos fez sexuados como obra muito boa saída de suas mãos! Ela é preocupação porque gera em nós tensões que precisam ser canalizadas de forma consciente e livre para não se tornarem repressões impulsivas que podem trair belos projetos e boas intenções. Ninguém pode menosprezar a força da sexualidade sem correr o risco de sucumbir diante de suas artimanhas.
Há em torno da sexualidade muitos mistérios, preconceitos, vícios, mal versões, que deturpam o sentido dela em nossa vida. Vejamos alguns aspectos.
3.1.      Sexualidade como genitalidade.
A sexualidade pode ser vista como genitalidade. Nesse sentido é a atração física que sentimos por alguém com quem desejamos estabelecer intercurso sexual. Enquanto genitalidade ela possui um poder de estímulo e sedução grande que mexe com a imaginação e a fantasia. A libido sexual estimula a busca do prazer físico que é direcionado para outra pessoa do outro sexo para os heterossexuais e para outra pessoa do mesmo sexo para os homossexuais. O prazer pode ser buscado também solitariamente através da masturbação ou de fantasias ou formas mais aberrantes (doentias). A genitalidade enquanto força, erotiza as relações com os outros. Se não for sadiamente controlada pelo indivíduo ela vai se tornando impulso que é capaz de cometer aberrações de diferentes tipos: Pode ir da pedofilia (problemas bastante  atual – que envolveu membros da Igreja recentemente com grande escândalos explorados exaustivamente pela mídia), ao exibicionismo, ao fetichismo, ao masoquismo sexual, ao sadismo sexual, ao fetichismo transvéstico, ao voyeurismo,  etc.
Hoje a genitalidade é vista pela Mídia, exceto as aberrações, como normal e legítima, e fortemente estimulada com apelos cada vez mais excitantes, chegando à banalização. Os jovens se iniciam precocemente na genitalidade facilmente consentida quando não estimulada pelos próprios pais. A única preocupação que os acompanham é a de prevenir-se contra a gravidez e a contração de doenças tipo AIDS.
A moral como força controladora da iniciação sexual, é de pouca valia, por ser considerada a esse respeito como coisa do passado. Poucos jovens levam em consideração ensinamentos morais a respeito da sexualidade, muito raros são aqueles que se guardam castos até o casamento. Nesse sentido o discurso religioso produz pouco resultado.
Nós, enquanto educadores da fé, dos valores cristãos, da castidade, do celibato precisamos ser mais convincentes com o nosso testemunho pessoal se queremos ajudar os jovens a entender com mais profundidade o sentido da sexualidade e genitalidade como expressão do amor e comunhão de vida. Para isso é necessário que avaliemos há quantas anda nossa própria sexualidade e sua integração em nosso projeto de vida.


3.2.      A sexualidade como expressão de um amor amadurecido
A sexualidade integrada na vida é expressão do amor amadurecido. Para que ela se torne expressão disso se faz necessário uma integração de toda a personalidade. A sexualidade é parte de um todo que se integra em um indivíduo que se conhece em seus aspectos humanos e afetivos, que tem consciência clara de sua opção vocacional, que tem internalizado os valores nos quais acredita, que expressa suas convicções pelo seu modo de viver. A sexualidade integrada perpassa todas as atitudes do indivíduo. Nelas ele se expressa enquanto pessoa e enquanto vocacionado. A sexualidade integrada se manifesta também como afetividade madura, equilibrada, alegre, vivaz e criativa. Pessoas, às vezes mal humoradas freqüentemente ressentem-se de uma integração sexual satisfatória. Isto vale para pessoas casadas, solteiras, celibatárias... A sexualidade tanto pode se refletir em diferentes sintomas aparentemente não sexuais, assim como problemas afetivos, podem se manifestar em conflitos sexuais ou manifestações eróticas tipo masturbação. [8]
3.3.      Sexualidade vs dependência afetiva
Um dos aspectos mais em evidência hoje nas relações interpessoais são as carências ou dependências afetivas. É comum se ouvir expressões “hoje estou carente” como justificativa para situações que o indivíduo não sabe bem como lidar ou se livrar. A carência afetiva (dependência) está presente em cerca de 60% das pessoas adultas normais. A busca da gratificação da carência afetiva se dá por diferentes formas, desde as abertas, conscientes, deliberadas até as mais sofisticadas que se escondem em nível inconsciente atrás de comportamentos e atitudes, vistos externamente, muitas vezes, como virtudes. Por exemplo, gestos (aparentemente) de generosidade, muitas formas de altruísmo, falsa humildade etc. Essa carência afetiva muitas vezes busca sua satisfação através da sexualidade, mantendo relacionamentos escusos.  A fome de afeto, às vezes é tanta que se devora o outro, a outra com os pensamentos, com a fantasia, com imaginação. Freqüentemente a carência pode se tornar também agressividade, que aparece no azedume com que se atende as pessoas, ou no mau humor com que se vive o dia.
            São muitas as razões porque alguém é carente afetivo. Freqüentemente são casos que tem uma longa história vinda da infância, da adolescência e que nunca foi tratada adequadamente. A carência afetiva com o passar do tempo mina as boas intenções, tira o elã por tudo aquilo que não gratifica e esvazia a vocação a ponto de torná-la infrutífera.
            Alguém pode ser carente ou dependente afetivo por razões opostas. Explicando melhor. É carente por falta ou dependente por excesso. Na infância, quando a criança não recebe o afeto devido, necessário para desenvolver-se afetivamente bem, pode ficar um carente por toda a vida. Em sua atitude frente ao mundo agir como alguém que se sente injustiçado e reclamar porque “tinha um direito de origem que lhe foi negado” e agora vive cobrando esse direito das pessoas. Há aqueles que quando pequenos foram super mimados, em casa não conheceram a frustração, foram sempre atendidos de modo até exagerado em suas demandas afetivas, não aprenderam a suportar frustrações dela. Quando foram para a escola e lá não obtinham a mesma atenção da professora e dos colegas, começaram a experimentar a frustração e então também eles se julgaram injustiçados, pois “tinham um direito adquirido e agora lhes é negado”, por isso reclamam (choramingam) com os outros o afeto que precisam para sentirem-se amados ou mesmo valorizados.
Como se vê a questão afetiva e sexual são realidades humanas complexas. Na verdade elas estão ligadas ao amor[9]. 
Conclusão
Diante do acima exposto, podem-se inferir algumas conclusões para a nossa vida. Entre elas podemos destacar a importância do autoconhecimento para uma integração da afetividade e da sexualidade. Esse aspecto pode não ser o mais importante, mas certamente ele é base para uma espiritualidade fértil e uma eficácia vocacional.
Conhecer a própria afetividade, como ela se desenvolveu, que aspectos ficaram imaturos pode ajudar muito para prevenir neuroses, aflições, depressões.
Conhecer e integrar a própria sexualidade é fator indispensável para a saúde psíquica e harmonia na e da personalidade.
Buscar ajuda qualificada quando se percebe que algo não vai bem na vida emocional é querer-se bem e preservar o bem que já se fez e ainda se pode fazer.
Cultivar uma espiritualidade verdadeira é fator altamente positivo para a saúde psíquica.
Manter amizades sadias e tempo para si mesmos são outros fatores que contribuem para o equilíbrio psicológico e evitar a depressão.
            Afetividade e sexualidade, dois aspectos intimamente unidos, apenas separados para efeitos pedagógicos de compreensão. Ambas sobrevivem na dependência mútua. Uma não existe sem a outra.

Bibliografia:
A. Cencini, A. Manenti, Psicologia e Formação. São Paulo: Paulinas, 1988
Cozzens, Donald B. A Face mutante do Sacerdócio. São Paulo: Loyola, 2001.
_______ Liberar o Celibato. São Paulo: Loyola, 2008.
_______ O Silencio Sagrado,
_______ A fé que ousa falar. São Paulo: Loyola
_______ A Espiritualidade do Padre Diocesano. São Paulo: Loyola
Dal Molin, Nico. Itinerário para o amor. São Paulo: Paulinas, 1996
Hererro, Joaquim Campos. Encontrar-se consigo mesmo. São Paulo, Paulinas
Ionata Pasquale. Saber amar-se. São Paulo, Paulinas.
Lucisano, Antonio e  Di Pietro, Maria Luisa. Sexualidade Humana. São Paulo: Paulinas.
Moser, Antonio. O enigma da esfinge. Petrópolis: Vozes
Muraro, Rose Marie e Boff, Leonardo. Feminino e masculino, ed.Sextante, 3ª. Edição
Novello Fernanda Porolari.  Um mergulho em si. São Paulo: Paulinas.
Nouwen Henri J.M. A voz íntima do amor. São Paulo: Paulinas.
Sperry, Len. Sexo, celibato e eglesia. Santander, Espanha: Sal Terrae
VV AA. Afetividade e vida religiosa. Publicações CRB 1989.



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[1] CENCINI, Amedeo, Virgindade e celibato hoje – para uma sexualidade pascal. São Paulo: Paulinas, 2009, PP.21-28
[2] Ibidem.  p. 26
[3] Ibidem. p.28
[4] A intensidade da relação, quando a mãe amamenta o seu bebê, proporciona uma unidade tal que entre eles não há espaço para mais ninguém!
[5] Podemos distinguir para cada fase pelo menos um aprendizado afetivo, ou melhor, dizendo uma forma de “amor”. Na primeira infância o “amor filial”,  na puberdade “o amor de companheiros”,  na adolescência “o amor paixão”, na  juventude “o amor responsável”,  na vida adulta o “amor oblativo”.
[6] “Há três estágios cerebrais, surgidos ao longo da evolução [...] O primeiro é o cérebro reptiliano, surgido há 200 milhões de anos, quando do aparecimento dos répteis. Esse cérebro ancestral responde pela fisiologia da subsistência, pois organiza as reações mais espontâneas da nossa vida, sempre instintivas e pré-reflexas, desde a sexualidade reprodutiva até os movimentos digestivos e nervosos de defesa diante da ameaças. O segundo é o cérebro límbico, surgido há 125 milhões de anos, com os mamíferos. É o cérebro dos sentimentos, da relação afetiva, do cuidado com a prole, da comunicação oral. Esse teve a mais longa duração temporal e estrutura fundamentalmente a profundidade humana, feita de pathos (“sentimento”) e Eros (“afeto”). É o cérebro da dimensão de anima em todos os seres superiores. Por fim, há o cérebro neocortical que irrompeu com a consciência reflexa há três milhões de anos. Este é o mais recente e o que menos memória genética possui, quando comparado com os seu predecessores. Ele responde pelo pensamento, pela fala e pela capacidade de abstração e de ordenação do ser humano. É fundamentalmente responsável pela dimensão de animus  nos seres humanos, homens e mulheres. A sexualidade e o amor têm as suas raízes profundas no cérebro límbico” – (MURARO, Rose Marie e BOFF, Leonardo, Feminino e Masculino, Rio de Janeiro: Sextante, 2002  p.47-48 )
[7]  MURARO, Rose Marie e BOFF, Leonardo, Feminino e Masculino, Rio de Janeiro: Sextante, 2002, 3ª. Edição, p.62
[8] A masturbação pode ser expressão de problemas de outra ordem, tipo relações interpessoais conflitivas, insucessos, frustrações no campo profissional etc. Descarga de tensão biológica, carência afetiva, situação penosa, alivio de solidão, complexo de inferioridade, sentimento de culpabilidade etc. Cfr. O enigma da esfinge, Antonio Moser, vozes, pp.187ss.,
- De acordo com o estudo de Friedrich, M.A. Motivations for coitus, Clinical Obstetric Gynecology, 3. ed. 1970, pode-se procurar o relacionamento sexual pelos seguintes motivos: 1) para atenuar a ansiedade e a tensão; 2) para engravidar e/ou para ter um filho; 3) como afirmação da própria identidade; 4) como comprovação do valor pessoal; 5) como defesa contra desejosos homossexuais; 6) como fuga de uma solidão ou da aflição; 7) como demonstração de poder sobre outra pessoa; 8) como uma expressão de raiva e de destruição; 9) como um meio de satisfazer um desejo de amor infantil.
[9] Eros, filia e ágape: três maneiras distintas, mas complementares do grego referir-se aquilo que denominamos “amor”. Eros = amor sensibilidade, sensualidade, filia = amor relações de amizade,     ágape = amor entrega, comunhão.

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